[...] vê como é belo e frágil o pensar daquela rapariga,
precisaria de um corpo mais sólido para sustentar a lealdade do olhar e não baixar os olhos perante o seu primeiro pensamento verdadeiro,
aquele que está a ter precisamente
viver é apascentar,
trazer, de novo, as imagens ao prado jubiloso
(p. 279)
não admira que, de repente, seu corpo se sobressalte, que o drama-poesia desça sobre ele num rapto, e que Baruch passe, em passos rápidos, pelo seu outro olhar _________________ não desvie esse olhar,
aconselho-a com suavidade
(p. 275)
o que ali se passa é na parte velada do corpo que se passa,
digo bem ________________________ passa, parte, velada, corpo
e digo «é para isto que o texto serve», naquele corpo disperso
há partes e, entre elas, uma parte velada por onde passa,
está passando, neste momento escrito, um não-visível, passar
não quer dizer desaparecer, quer dizer
cria nele um passamento inexorável, imprime-lhe movimento, o movimento de passar, no tempo e no corpo, tudo partes transitáveis,
(p. 277)
onde vais, drama-poesia?
m.g. llansol
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terça-feira, 24 de maio de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
[...]
nunca ninguém desejou tanto ter na boca uma andorinha. Eu vejo-a, no telhado, a correr através delas com um relfexo de cobre, rasteja, espera, salta sobre o seu voo rasante; as asas delas, longas, pestanejam-lhes nos olhos,
tentam-se mutuamente; os seus bordos atractivos, no entanto, são mortais; Melissa, porque distraída, pode cair do telhado, e a andorinha, por se separar do ente criado do voo
e penso que é preferível não trocarmos de vestes com a paixão, guardar, talvez, a liquidez do apaixonado e encontrar uma arte de viver não coercitiva. Em Melissa, a liquidez não é transparente, deseja esses objectos móveis,
concretos e quentes, com a premência de viver o seu negativo, dir-se-ia
onde vais, drama-poesia?, p. 294
nunca ninguém desejou tanto ter na boca uma andorinha. Eu vejo-a, no telhado, a correr através delas com um relfexo de cobre, rasteja, espera, salta sobre o seu voo rasante; as asas delas, longas, pestanejam-lhes nos olhos,
tentam-se mutuamente; os seus bordos atractivos, no entanto, são mortais; Melissa, porque distraída, pode cair do telhado, e a andorinha, por se separar do ente criado do voo
e penso que é preferível não trocarmos de vestes com a paixão, guardar, talvez, a liquidez do apaixonado e encontrar uma arte de viver não coercitiva. Em Melissa, a liquidez não é transparente, deseja esses objectos móveis,
concretos e quentes, com a premência de viver o seu negativo, dir-se-ia
onde vais, drama-poesia?, p. 294
domingo, 7 de novembro de 2010
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
imagem, sexo, vivo, surpresa, fulgor
As imagens sabem que têm de caminhar para nós com o seu sexo de ler. Sem ele, são propriamente sem texto. Sabem? Sim, sabem. Utilizamos pouco o nosso sexo próprio para fazer. Utilizamo-lo, sobretudo, para sentir e sondar. Como crianças em perpétuo crscimento, nunca estáveis numa única imagem. O que sentimos fisicamente com o sexo que temos, o que as imagens vêm procurar em nós,
não é o sexo que praticamos,
é a vibração pelo vivo e pelo novo. Chamei-lhe fulgor porque é assim que sinto.
[...]
Falo de fulgor porque a falta de claridade é essencial. A escuridão é propícia ao medo, ao pensamento e ao projectar. O descoberto e o escondido confundem-se, trocam de rosto. Entram em simetria. Quando o meu há é todo o há que existe.
Viver com as imagens é a nossa arte de viver. Reparem, sem o seu fulgor não saímos da simetria. E nesta nada vemos. Vamos presumir uma saída. Veremos o que o nosso sexo sonha. E este sonha apenas a parte da simetria que lhe cabe. A outra parte pertence à imagem que vai tomando vida. Avançamos para ela e ela avança sobre nós. Esse movimento torna-nos obsessivos e inconstantes. Não podemos viver sem ele, mas a imagem não se mantém fixa. O fulgor desloca-se. Não podemos desejar o novo e querê-lo sem surpresa. Começa a irradiar do sexo e alteia-se. Do aqui evolui, difunde-se por todo o há que possamos admitir.
O desejo é escuro, diz Rimbaud.
Sujo, queres tu dizer, replica Aossê.
O desejo é divino, diz convictamente Hölderlin.
Dickinson pede silêncio. Que os homens tagarelas se calem porque, na extrema do jardim, emerge, ou parece emergir, uma nova imagem. Em seguida, o futuro corre para nós a grende velocidade. Há partes que se entendem, e partes aparentemente sem qualquer sentido. Uns lutam, outros acolhem. Com ou sem pacto, não creio que as imagens nos queiram bem (nem, aliás, mal) ou nos reconheçam. Não são aladinos. Mas caminhos (que eu sempre vivi como jubilosos e que, para outros, são angustiantes e tormentosos) que nos fazem ter corpo, este tempo, este poema na voz. O grão, entre todos reconhecível, da nossa escrita. Os poemas que oferecemos uns aos outros. O desejo de perfeição e de completude que lemos no que escreveram. [...]
A imagem surge no fundo do jardim.
É quase só negro, no início da perca de simetria.
Maria Gabriela Llansol, Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 33.
não é o sexo que praticamos,
é a vibração pelo vivo e pelo novo. Chamei-lhe fulgor porque é assim que sinto.
[...]
Falo de fulgor porque a falta de claridade é essencial. A escuridão é propícia ao medo, ao pensamento e ao projectar. O descoberto e o escondido confundem-se, trocam de rosto. Entram em simetria. Quando o meu há é todo o há que existe.
Viver com as imagens é a nossa arte de viver. Reparem, sem o seu fulgor não saímos da simetria. E nesta nada vemos. Vamos presumir uma saída. Veremos o que o nosso sexo sonha. E este sonha apenas a parte da simetria que lhe cabe. A outra parte pertence à imagem que vai tomando vida. Avançamos para ela e ela avança sobre nós. Esse movimento torna-nos obsessivos e inconstantes. Não podemos viver sem ele, mas a imagem não se mantém fixa. O fulgor desloca-se. Não podemos desejar o novo e querê-lo sem surpresa. Começa a irradiar do sexo e alteia-se. Do aqui evolui, difunde-se por todo o há que possamos admitir.
O desejo é escuro, diz Rimbaud.
Sujo, queres tu dizer, replica Aossê.
O desejo é divino, diz convictamente Hölderlin.
Dickinson pede silêncio. Que os homens tagarelas se calem porque, na extrema do jardim, emerge, ou parece emergir, uma nova imagem. Em seguida, o futuro corre para nós a grende velocidade. Há partes que se entendem, e partes aparentemente sem qualquer sentido. Uns lutam, outros acolhem. Com ou sem pacto, não creio que as imagens nos queiram bem (nem, aliás, mal) ou nos reconheçam. Não são aladinos. Mas caminhos (que eu sempre vivi como jubilosos e que, para outros, são angustiantes e tormentosos) que nos fazem ter corpo, este tempo, este poema na voz. O grão, entre todos reconhecível, da nossa escrita. Os poemas que oferecemos uns aos outros. O desejo de perfeição e de completude que lemos no que escreveram. [...]
A imagem surge no fundo do jardim.
É quase só negro, no início da perca de simetria.
Maria Gabriela Llansol, Onde Vais, Drama-Poesia?, p. 33.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Onde Vais, Drama-Poesia? (Apoptose - VI)
esta é, assim, uma rua perfeitamente normal sendo anómala, um território sem fim onde, numa casa, me pus a pensar por cima dela;
penso
quando a noite cai,
e eu saio com a noite,
o que me faz passear surpreendendo-me com o facto nu de que o tempo intermitentemente se apaga, e o espaço cresce em mobilidade visível;
no meu passeio,
o espaço vai apagando o tempo, sua sombra vizinha, torna-se redondo ou contemplativo de si próprio, enquanto o percorro sem movimento, numa espécie de não ser, de não fazer; o não andar se instala, só há a mancha da noite como antes houvera a mancha do mundo, a nebulosa onde vou dar de comer aos gatos; desce sobre nós um enunciado positivo e real ______ a rua anómala, por me ver passar, derrama-se sobre mim, trocamos de inconsciência,
o texto a conhece, eu a desconheço, ambos a queremos; trocamos nossas formas que se dissolvem agora numa substância que sonhámos em permanência,
substância da dor de amor, outro nome do drama-poesia
porque o amor tem lados e tem dor, sombras vizinhas que convergem e divergem, uma dor que não nos socorre, e se afasta de nós;
andando, por carta ou por livro, dirijo-me directamente ao amor, interrogando-o
se a dor não é o preço desta rua,
destes olhos criados por uma certa densidade de luz,
às seis da tarde, quando saio
Maria Gabriela Llansol, Onde Vais, Drama-Poesia?, Relógio d'água editores, p. 302.
penso
quando a noite cai,
e eu saio com a noite,
o que me faz passear surpreendendo-me com o facto nu de que o tempo intermitentemente se apaga, e o espaço cresce em mobilidade visível;
no meu passeio,
o espaço vai apagando o tempo, sua sombra vizinha, torna-se redondo ou contemplativo de si próprio, enquanto o percorro sem movimento, numa espécie de não ser, de não fazer; o não andar se instala, só há a mancha da noite como antes houvera a mancha do mundo, a nebulosa onde vou dar de comer aos gatos; desce sobre nós um enunciado positivo e real ______ a rua anómala, por me ver passar, derrama-se sobre mim, trocamos de inconsciência,
o texto a conhece, eu a desconheço, ambos a queremos; trocamos nossas formas que se dissolvem agora numa substância que sonhámos em permanência,
substância da dor de amor, outro nome do drama-poesia
porque o amor tem lados e tem dor, sombras vizinhas que convergem e divergem, uma dor que não nos socorre, e se afasta de nós;
andando, por carta ou por livro, dirijo-me directamente ao amor, interrogando-o
se a dor não é o preço desta rua,
destes olhos criados por uma certa densidade de luz,
às seis da tarde, quando saio
Maria Gabriela Llansol, Onde Vais, Drama-Poesia?, Relógio d'água editores, p. 302.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
heliessidê
+
as plaquinhas de EVA, sobre que escrevi, em versão playground da casa da VOVÓ.
o popular corte das plaquinhas de EVA apresentado acima se assemelha claramente a um produto indispensável,
é mesmo o formato ampliado de uma cartela de LSD,
só que sem os desenhos geralmente colocados pelos laboratórios clandestinos. o LSD,
delirando o sentido, pode ser uma afronta a uma fobia, com imagens vividas melhor do que pensadas.
os antidepressivos de laboratórios milionários não é que fazem milionários tomarem ducha fria
o ácido lisérgico
sim, uma ducha fria, o LSD,
e depois mais uma ducha fria,
tomará a ducha fria a medicina
dr. virgílio realizará
terapias psicodélicas, ou seja,
com a legalização de drogas como o LSD,
o doce,
amplamente utilizado pela classe média brasileira, assídua do asfalto e grande admiradora dos automóveis. minha senhora,
tem muita viagem errada,
a garotada pula, o pessoal gosta
mas viagem errada é igual
esperar dentro do balão
que voando vai estourar
e cair
num monte de gente sem ver
que você está caindo
em pessoas do mesmo sexo
pessoas do mesmo sexo, gays
lésbicas e simpatizantes
no Brasil, as pessoas desse grupo social, digo, classe média, e também de outros, frequentemente atuam como se a sinalização para pedestres
não existisse.
pessoas a pé, sem plano de saúde,
que sonho vamos nós sonhar que nos sonhe?
qual possibilidade viável? o homem é grande, construtor, espontâneo, médico,
como podemos ver
as plaquinhas de EVA, sobre que escrevi, em versão playground da casa da VOVÓ.
o popular corte das plaquinhas de EVA apresentado acima se assemelha claramente a um produto indispensável,
é mesmo o formato ampliado de uma cartela de LSD,
só que sem os desenhos geralmente colocados pelos laboratórios clandestinos. o LSD,
delirando o sentido, pode ser uma afronta a uma fobia, com imagens vividas melhor do que pensadas.
os antidepressivos de laboratórios milionários não é que fazem milionários tomarem ducha fria
o ácido lisérgico
sim, uma ducha fria, o LSD,
e depois mais uma ducha fria,
tomará a ducha fria a medicina
dr. virgílio realizará
terapias psicodélicas, ou seja,
com a legalização de drogas como o LSD,
o doce,
amplamente utilizado pela classe média brasileira, assídua do asfalto e grande admiradora dos automóveis. minha senhora,
tem muita viagem errada,
a garotada pula, o pessoal gosta
mas viagem errada é igual
esperar dentro do balão
que voando vai estourar
e cair
num monte de gente sem ver
que você está caindo
em pessoas do mesmo sexo
pessoas do mesmo sexo, gays
lésbicas e simpatizantes
no Brasil, as pessoas desse grupo social, digo, classe média, e também de outros, frequentemente atuam como se a sinalização para pedestres
não existisse.
pessoas a pé, sem plano de saúde,
que sonho vamos nós sonhar que nos sonhe?
qual possibilidade viável? o homem é grande, construtor, espontâneo, médico,
como podemos ver
terça-feira, 8 de junho de 2010
tirou o chapéu e foi
Escondeu-se para escrever; mas, antes, começou por ler no livro em que possuía a sua infinita felicidade
permanecia no princípio, mas não tinha princípio; era o próprio princípio e, por consequência, não havia princípio; um no outro estava como o amado no seu amigo; e este amor que os une tem o mesmo valor que num e noutro, a mesma igualdade
ao ler, apercebeu-se que lia de pé, em frente da sua estante a arte de conduzir o jejum
distraído,
[...]
como esconder-se para escrever
vamos deixá-lo escrever, disse o cavalo.
[...]
Livro das comunidades
permanecia no princípio, mas não tinha princípio; era o próprio princípio e, por consequência, não havia princípio; um no outro estava como o amado no seu amigo; e este amor que os une tem o mesmo valor que num e noutro, a mesma igualdade
ao ler, apercebeu-se que lia de pé, em frente da sua estante a arte de conduzir o jejum
distraído,
[...]
como esconder-se para escrever
vamos deixá-lo escrever, disse o cavalo.
[...]
Livro das comunidades
terça-feira, 27 de abril de 2010
Lugar 9 -
Enquanto o urso entoava os prenúncios da Regra, Ana de Jesus, nos seus braços, cuidava em Pégaso, Copérnico e Giordano Bruno. Sonhava: pela porta entreaberta surpreendera Copérnico a meditar. Era o fim do dia, o sol entrara pela janela e pela janela partira. "E ao meio de tudo repousa o Sol", pensava Copérnico. Sonhava: sabia que era assim mas, naquele momento, via que assim era; dava-se-lhe a conhecer experimentalmente como se as ideias tivessem deslizado para dentro da casa e fossem a última luz que coroava os móveis; não tirava os olhos do pote de água que estava pousado no parapeito; parecia que tudo girava em torno do Sol, brilhante coração aberto; quando voltou a si, a sopa fumegava no prato e os monges guardavam em silêncio com as mão juntas assentes sobre a tábua.
Livro das comunidades
Enquanto o urso entoava os prenúncios da Regra, Ana de Jesus, nos seus braços, cuidava em Pégaso, Copérnico e Giordano Bruno. Sonhava: pela porta entreaberta surpreendera Copérnico a meditar. Era o fim do dia, o sol entrara pela janela e pela janela partira. "E ao meio de tudo repousa o Sol", pensava Copérnico. Sonhava: sabia que era assim mas, naquele momento, via que assim era; dava-se-lhe a conhecer experimentalmente como se as ideias tivessem deslizado para dentro da casa e fossem a última luz que coroava os móveis; não tirava os olhos do pote de água que estava pousado no parapeito; parecia que tudo girava em torno do Sol, brilhante coração aberto; quando voltou a si, a sopa fumegava no prato e os monges guardavam em silêncio com as mão juntas assentes sobre a tábua.
Livro das comunidades
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
the man i love
"como separar a arte de acompanhar e de compor da arte de desaparecer?"
Um falcão no punho
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Vila-Pouca de Aguiar, 26 de agosto de 1975.
Escrevem à máquina em face deste campo; milhões de folhas de papel para trilhões de folhas de árvore; mulheres sentadas oito horas por dia a escrever cartas e a dar forma lapidar à evidência. Senhor doutor, senhor ovo de sabedoria, senhor de gema perdida; é o meio-dia das duas horas livres para continuar à tarde; com este horário de contenção biológica, com esta incubadora de leis, política vai gerando político, eternamente. Acumulam-se informações, mas o Estado, composto por estes milhões de homens machos que vomitam frases e testículos e lugares comuns de há séculos, não vota a lei do seu desaparecimento.
Populações,
melhor,
gentes,
eu, o Estado,
eu, o governo,
eu, a assembleia,
eu, os partidos,
eu, os jornais,
eu, os escritórios - os cafés -
as dobragens
das repartições públicas,
eu, as receitas coletivas do Estado,
eu, os homens,
que denegamos o cotidiano,
e fodemos sistematicamente
a imaginação,
a palavra balbuciada,
e as torrentes de palavras
virgens
que dormem nas nascentes
votamos o nosso próprio desaparecimento.
Fomos às universidades, mas
prometemos ficar calados,
só a abater árvores,
a enfrentar animais
e a dar possibilidade
de existência às florestas.
Maria Gabriela Llansol em Uma data em cada mão - Livro de Horas I. Assírio e Alvim, 2009.
i can't forget but i don't remember what
espigueiros em vila nova de samardã, freguesia portuguesa do concelho de vila real, em trás-os-montes
22 de novembro de 2009
(o milho pode ser guardado sem humidade)
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